Sem me entristecer, digo que o blog amores-requentados chegou ao fim. Deixei aqui registrado cada oportunidade boa de viver, de sentir e até de sofrer. Amar é isso. Requentar os amores é vivê-los sempre, contá-los sempre. E sei que não deixarei de fazer isso, de contar dos amores, de reviver e rever os amores. Mas o amores-requentados hoje diz adeus.
quinta-feira
sábado
Chuva
Quando uma árvore é cortada ela renasce em outro lugar. Quando eu morrer quero ir para esse lugar, onde as árvores vivem em paz.
(Tom Jobim)
Para a minha avó, que me deixou ontem.
quarta-feira
Mundaréu de estrelas
Fé na vida, hermana, fé no que virá.
(Ana Jácomo)
Eu sinto sua falta. Aqui, ali, hoje e ontem. Nossa amizade me fez ver tanta coisa boa, tanta coisa bela. Sinto falta de ouvir um "Amiga, não se ilude", ou de cantar qualquer música usando uma garrafa qualquer de uma bebida qualquer. Eu sinto falta de poder te ligar: "Oi Mandy, não tenho nada de muito bom pra contar" e os assuntos surgiam e por aí iam mais ou menos uma hora de telefonemas. Eu não sei muito bem o que eu quero te dizer, porque eu não queria precisar escrever nada: eu queria estar aí, poder te ligar, subir aí na sua casa que é tão longe da minha. Na verdade, eu estou aí, de tanto que quero estar. E te desejo toda a paz, toda a vida, toda a luz, tudo. Todo o amor, toda a vontade de viver, de querer estar bem. E que, por mais que venham alguns problemas, que você não desista nunca. Não desista de sonhar. E "quero que haja sempre uma cerveja em sua mão e que esteja ao seu lado seu grande amor".
Feliz aniversário.
(e, não se esqueça de dois pontos por demais importantes: "nenhuma folha de árvore cai se não for da vontade de Deus" e o quanto nossa amizade é valiosa pra gente porque mesmo que mude, nada há de mudar).
[título extraído do texto: Com fios de amor]
terça-feira
Demasiadamente
Dear,
se quiser procurar: não precisa. Cá está seu texto. Sem nomes, sem dores antigas, sem sentimentos intensos. Sou eu: eu. Com pressa, com provas, com vida. Sou eu. Mas você conhece bem, você sabe como é. Você sabe cada pedra que eu temo e sempre temi pisar. Você sabe de tudo e, se isso fosse um jogo - se me permite a comparação - eu não poderia blefar. Simplesmente por não saber fazê-lo. Ou por não conseguir.
Eu estou aqui, vivendo estudado me apaixonando e sentindo, e veja só como são as coisas: mesmo com essa memória fraca consigo me lembrar. E comento com algumas pessoas: "três anos, amor adolescente pra lá de insistente, né?!" E as pessoas comentam: "você é boba, contando dias, lembrando datas". É, sou boba. Marco encontros anuais com a minha memória, com o baú das coisas boas que sobraram do que passou. E passou. E passa: eu fico. E fiquei em todas as outras vezes, e deixei todas as outras pessoas irem embora como você continua indo, mas não vai. Sempre se lembra de olhar para trás, principalmente em dias como hoje. "Esqueceu amarrada a canoa na beirada", não adianta tanto remar. A memória tem um compromisso conosco. O de nos fazer rever mesmo quando desejamos com veemência seguir. Mas eu não olho hoje com aquele quê de nostalgia, de dor por ter se passado, por ter deixado que pessoas como você partissem. Não dói. A memória, em especial neste ano, fez aparecer coisas especiais que me fizeram ter felicidade em pensar que vivi coisas tão boas e que você foi igualmente bom para mim. Não seria o que sou hoje, sempre digo. Não quero que reviver nada, não desejo que você me ame como já me amou, porque a vida, afinal, precisa passar, as horas do relógio, dear, não esperam por ninguém, nem por nós (épicos heróicos românticos, diria Caio Fernando Abreu). Não desejo nada. Mas sei que sinto um carinho muito bom por você, pelo dia de hoje, pelas cartas na pasta, pelos pinguins, pela minha memória fiel e por mim.
Até ano que vem,
Assinado: eu (como na música da Tiê)
domingo
"Quanto setembro vier
de tão azul o céu parecerá pintado". Havia festa em algum lugar hoje, sei disso. Algumas pessoas escrevendo e sonhando e vivendo amores não realizados e realizados - por que não? - e esperando as cartas os telefonemas os gestos as decisões. O mundo corria normalmente - como sempre faz - e as pessoas viviam como sempre viviam. Ou não. Mas alguém notou o céu. De tão azul, parecia que alguém teria derramado um balde de tinta. Acho que algumas pessoas pararam hoje para olhar o céu. Eu tive ciúmes: o céu era tão teu que o queria só pra mim. Tive ciúmes dos tantos que liam algum conto teu, alguma coisa escrita com beleza, porque eu não parei um segundo. Mas olhei para o céu. E pensei: "Caio foi esperto, derramou foi tinta no céu todo". Pensei em você em alguns momentos do dia, pensei em você com força e carinho.
Onde quer que esteja - parece pretensão demais, eu sei - deve ter notado. Uma amiga me disse que quando a gente pensa com força em alguém, esse alguém sente. Pode sentir?
No céu, existiu uma festa hoje. Derrubaram tinta no chão do céu.
E, um último pedido: que seja doce aí. Por aqui vai tudo bem.
Para Caio Fernando Abreu.
Com carinho.
quarta-feira
Enquanto isso
Uma amiga me disse agora que "a gente não deve ser menor que nossos sonhos". Acho que meus olhos, se os dias fossem outros, se encheriam de lágrimas. Se os tempos fossem outros. As coisas mudaram muito e eu já estou me acostumando a ter um sorriso no rosto mesmo depois daquela noite que não dormi bem, ou num dia de coração bagunçado.
Não tenho muito tempo de escrever mais. Acho que tempo até tenho. Não tenho são as palavras.
E não quero ser menor que meus sonhos. Mesmo que eu não saiba quais são.
Setembro é um mês em que, já diria uma música: "Portas e janelas ficam sempre abertas pra sorte entrar". Eu espero, sentada no tapete da sala.
Sem você sou pá furada.
Querido Leonardo,
Hoje foi um dia todo atípico, todo estranho. Os dias aqui não são os mais normais, sei disso, mas hoje foi ainda mais diferente. O dia estava lindo, lindíssimo. Nem consigo me lembrar ao certo tudo o que houve, mas sei que foi um dia lindo. Como o dia em que levava seu disco do Queen e, no caminho, notei quão grande era a beleza das coisas. É difícil notar isso, é sempre tanta correria que eu sei lá. Mas o estranho do dia é que não posso te abraçar, bem forte, nem dizer o quanto te desejo tudo de melhor do mundo. E te desejo, mesmo que não diga. Nem estou perto suficiente para me incomodar por você parecer não dar a mínima para uma série de coisas que eu sinto e só agora te digo: às vezes você não liga mesmo, não dá a mínima. Mas eu não me importo tanto e, se me importo, passa logo. Eu queria dizer qualquer coisa bonita, mas o necessário é que você saiba a vontade imensa que estou de te abraçar forte, e receber teu abraço também. Você deve achar tudo isso piegas, não é? Pode achar. Sei que não te acompanho sempre e sei que fico tempos sem aparecer e, quando apareço, nem apareço mesmo, nem pareço a mesma. Eu sei de tudo, Léo. Nosso contato se perdeu muito nos últimos dias e eu não consigo manter uma conversa mais cheia de bobagens no msn com você, como antes. Mas eu sei que não foi intencional, e que não é. Nós dois nutrimos um apreço grandíssimo por essa amizade de anos, tenho certeza. Você é o meu melhor amigo e sempre vai ser, mesmo que a gente nunca mais se fale e que nos distanciemos a tal ponto que sejamos incapazes de saber como foi o dia do outro. Você sempre vai ser meu melhor amigo porque, simplesmente, sem você não dá muito pra ser. Porque, sem você, "sou pá furada" (e essa é nossa frase, não é? Desde 2007), e pá furada não serve de nada. Você está aqui comigo, todo o tempo. Eu estou aí com você também, todo o tempo. Eu não vou te abandonar, Leozinho, por nada. Eu posso ficar décadas sem te ver, mas sei que te reconheceria em qualquer lugar (e não digo apenas pelos cabelos ruivos ou senso de humor peculiar), reconheceria porque não há ninguém no mundo igual a você.
Com tudo isso, eu só queria mesmo dizer que seu aniversário abre o meu mês favorito. E que eu desejo para você qualquer coisa que você também deseje muito. Feliz aniversário.
Com (muito) carinho,
Maria Carolina.
contato (i)mediato
Caro senhor,
Peço, desde o início, que compreendas o quão inábil sou com as palavras. Não as tenho em meu domínio, na verdade, creio até ser o contrário.
Peço, também, que perdoe minha intromissão, pois sei que não querias se revelar. Mas é preciso dizer, sim, é preciso dizer.
Há anos acumulo uma bagagem emocional pra lá de bagunçada. Choros pra cá, sorrisos pra lá, amores retribuídos ou platonites agudas. Dito assim parece até haver equilíbrio, mas não há, nem houve. Essa bagagem é inflada de cartas, e eu sou demasiadamente apaixonada por elas, cartas são meus objetos de lembrança, parecem ter cheiro - cor - vida própria. As tuas, por sinal, guardo dentro duma caneca branca, caneca nunca usada para um café no meio da tarde. Caneca: só caneca. Entretanto, mais que um café e gotas de adoçante, esta vem sendo capaz de comportar cada pedaço bem cuidado de entrelinhas. Noto a caneca agora: parece ter cheiro - cor - vida própria também.
O objetivo maior deste bilhetinho, caríssimo, é saber por onde andam ou andaram teus pés descalços e porque decidiram colidir com os meus sem que sentíssemos. Sem que pudéssemos nos ver, sem que pudéssemos saber quem somos. Você gosta das minhas palavras, porque, mesmo sem freios, parecem ser o que há de melhor em mim.
Mas são?
Não aguardo respostas.
Não espero notícias.
Com carinho,
Ana.
terça-feira
Qualquer coisa
Qualquer
Traço, linha, ponto de fuga
Um buraco de agulha ou de telha
Onde chova.
Qualquer pedra, passo, perna, braço
Parte de um pedaço que se mova.
Qualquer
Qualquer
Fresta, furo, vão de muro
Fenda, boca onde não se caiba.
Qualquer vento, nuvem, flor que se imagine além de onde o céu acaba
Qualquer carne, alcatre, quilo, aquilo sim e por que não?
Qualquer migalha, lasca, naco, grão molécula de pão
Qualquer
Qualquer dobra, nesga, rasgo, risco
Onde a prega, a ruga, o vinco da pele
Apareça
Qualquer
Lapso, abalo, curto-circuito
Qualquer susto que não se mereça
Qualquer curva de qualquer destino que desfaça o curso de qualquer certeza
Qualquer coisa
Qualquer coisa que não fique ilesa
Qualquer coisa
Qualquer coisa que não fixe.
Traço, linha, ponto de fuga
Um buraco de agulha ou de telha
Onde chova.
Qualquer pedra, passo, perna, braço
Parte de um pedaço que se mova.
Qualquer
Qualquer
Fresta, furo, vão de muro
Fenda, boca onde não se caiba.
Qualquer vento, nuvem, flor que se imagine além de onde o céu acaba
Qualquer carne, alcatre, quilo, aquilo sim e por que não?
Qualquer migalha, lasca, naco, grão molécula de pão
Qualquer
Qualquer dobra, nesga, rasgo, risco
Onde a prega, a ruga, o vinco da pele
Apareça
Qualquer
Lapso, abalo, curto-circuito
Qualquer susto que não se mereça
Qualquer curva de qualquer destino que desfaça o curso de qualquer certeza
Qualquer coisa
Qualquer coisa que não fique ilesa
Qualquer coisa
Qualquer coisa que não fixe.
Arnaldo Antunes.
Outros quinhentos
Pequena reflexão dos fatos igualmente pequenos. Eu diria, também, que não tem lá grande importância... o problema é que elas têm.
Querido,
Eu bem sei que não sei manter uma conversa séria, sem me desesperar e chorar alguns desperdícios, eu sei que os cacos estão bem espalhados e que os caminhos estão livres, e sei também o quanto insisto em pisar nos cacos. E quem leva a culpa, coitada, é a minha visão, que não trabalha muito bem e eu ainda forço para que ela trabalhe mais do que deveria, enquanto gasto horas escrevendo cartas tão bobas feito essa ao invés de me dedicar arduamente aos deveres de biologia. O problema é que eu não gosto de biologia. E, segundo minha teoria, minha visão se tornaria um problema ainda maior se eu lesse, de fio a pavio, o livro de 500 páginas de biologia. Infelizmente não se faz só o que se quer, portanto, logo após me cansar de te dizer essas bobagens e jantar, vou concentrar meus esforços da visão nas letras negras e desenhos coloridos do livro de biologia. Estou me dedicando tanto a uma causa que não amo por uma questão de honra. Não que isso valha a pena em todos os casos, mas neste vale. Biologia nunca foi minha matéria favorita, e talvez nunca será, mas eu copio cada sílaba que a professora fala para não me perder. Quem dera eu pudesse viver só de cartas assim, não é?! Dispensando a biologia, os cálculos. Viver das palavras, mas palavras não são coisas para se viver. São coisas para se amar. E dedico algum tempo para viver de amor. Amor às palavras. É uma pena que você pense que vivo para te escrever, para te endereçar correspondências. Voltando ao assunto principal que eu nem me lembro qual era.
Esta carta está ficando longa e chata? Tudo bem. Pode parar por aqui, se quiser. Não contei da missa um terço e estou me livrando de uma triste (miúda) que acabava de tentar se instalar na minha bela quase noite de terça-feira.
Amanhã é quarta - feira. Se bem que eu acho todos os dias bem parecidos. Se bem que amanhã não tem aula de inglês como nos outros dias. E eu poderia achar mais um milhão e meio de diferenças nos dias, o rosto de alguém, uma espinha nova no meu rosto, mais uma blusa de uniforme sobre a cadeira, ciclos de humor, aulas... mas não cabe agora dizer cada uma delas. Esse nem é o assunto principal. Mas, me diga, qual é mesmo o assunto principal?
Eu acho que te escrevo agora para me animar. Sem palavras ricas, sem grandes reverências, sem nada de muito criativo. Só o meu amor pelas palavras. E meu sutil grito de, talvez, socorro. Eu estou um pouco cansada e, às vezes, sinto o peso do mundo nas minhas costas. Sabe, eu sinto saudades de quando as horas eram longas porque as preocupações eram, de fato, pequenas: "ai, qual roupa colocarei nas minhas bonecas hoje?" ou, mais tarde "amiga, não sei que roupa vou àquela festa". Não tenho 30 anos, e sei que, quando lá chegar, acharei tudo isso muito babaca, porque terei filhos, trabalho, marido, cachorros, e um mundo inteiro se abrindo para mim. Oportunidades de trabalho, colégio para os filhos, arrumar a gravata do marido, dar ração aos cachorros e, o pior, encontrar tempo pra tudo isso. Soaria babaca mesmo dizer, depois de tudo, que aos dezesseis anos eu estudei num colégio interno, longe de casa, dos meus pais e da vida que eu tinha. Soaria ainda mais babaca se eu dissesse: "ai, não sei o que fazer. Sinto uma dor estúpida no coração porque não sei decidir". Seja como for, quero estar ainda um pouco distante dos trinta, porque esses problemas já me são grandes o suficiente, obrigada.
O dia estava lindo hoje. A noite parece ainda mais linda.
Não quero privar minha visão de nada. Quero viver quantos anos puder - tantos quanto a minha bisavó, que se aproxima dos 100 em grande estilo - para ver todos os sóis, as fases da lua, o homem ir e voltar do espaço. Mas de que isso te importa, não é? Nada disso deve te importar. Tudo bem. Esses dias lindos me fazem bem, sim. Mas não posso negar que fico um pouco triste. Não sei por que. É essa carência afetiva, esse copo cheio até o meio. Meio cheio-meio vazio-meio-cheio-de-vazio. E me dói, no fundo da carne. O amor precisa sempre, em mim, ser o centro das atenções. Acho que, exatamente por isso, muitas coisas me despertam o amor: seja uma flor, uma fotografia, umas cartas, umas pessoas e um rapaz que se parecia com o Bob Dylan antes de cortar o cabelo. Umas pessoas que foram, umas saudades de ontem. Ontens. Ontem que não o dia que antecedeu hoje, mas todos os milhares de dias que antecederam o hoje. A saudade, como o amor, parece nunca se calar. E peço para que ambos não se calem, e nem durmam: mas que gritem muito, que façam a farra em mim. Afinal, procurei por dias a minha composição, e na essência, sou feita disso. Se eles adormecerem, talvez eu adormeça também. Mas no meu coração jovem, na minha alma jovem (ou nem tanto), eles ardem como deveriam. Pois, é como eu disse, desejo viver 100 anos. Ou mais. Nunca menos. 100 anos é a minha meta: e de cabelos grisalhos, com sapatinhos vermelhos e uma casa toda bonitinha. E, se possível, um bocado de crianças me chamando de 'vó, até os que não forem meus netos.
A que se destina essa carta? Não sei. Talvez a deixar o dia ainda melhor. Esvaziar a alma de coisas que pesaram.
Ou talvez nem se destine a nada.
Não tem estrelas no céu. Pode ser que chova.
domingo
Tá fazendo frio nesse lugar.
Talvez até eu já vivesse
em algum corpo emprestado
Esperando só por você
pra reunir meus pedaços
Foi tanta força que eu fiz por nada,
(...)
Só pra você eu me poupei
Será que o tempo sempre disfarça,
Tomara um dia isso tudo passa
Desculpa as mágoas que eu deixei
(...)
enquanto eu me retiro
Só você sentiu por mim
o que nem eu sentiria
Você foi o meu escudo
e eu a própria covardia
Se você ainda acreditar,
eu prometo (...)
Te proteger,
te poupar das dores,
Te devolver o amor em dobro
Não se ama, amor, em vão
(Doublé de Corpo - Leoni)
sábado
Mais uma vez
Entre confissões cada vez mais nervosas, entre uma unha roída e outra, entre os dedos batendo forte nas teclas de um computador. Entre cada dia nem vivido quanto deveria, entre cada abraço demorado - pois que tinha gosto de partida - entre mãos vazias de outras mãos. Todo mundo, um dia, vai-se embora. Todo mundo, um dia, deixa a vida que tinha e vai-se embora buscar os sonhos que teve. Eu só sonho nas noites em que durmo cansada. O sonho é uma amostra, uma miragem daquilo que tanto queremos. Ou nem queremos. Eu nem sei o que o sonho significa de fato, eu imagino tanto e escrevo. Escrevo porque minha cabeça não dorme se tantos pensamentos, miragens, imagens e imaginações não forem para outro lugar. Escrever é castigar o papel, fazê-lo sentir as coisas que sinto, o papel é meu ponto de apoio. Batendo os dedos, agora, fortemente contra a madeira da mesa, caos. Estou partindo de novo, em busca de crescimento e dos sonhos que tive um dia. De ônibus, com a bagagem e o coração nas mãos. O coração sangrando, ferido - coitado - quer ficar. Tudo bem, eu me aguento. Ou pelo menos penso que aguento - a isso dão o nome de esperança. Ou pelo alguns acreditam que eu deveria aguentar. Deveria.
Saí de casa, levei comigo a alma e todo o resto. Sobrou uma placa na porta: Volto Logo.
Saí de casa, levei comigo a alma e todo o resto. Sobrou uma placa na porta: Volto Logo.
Invariável
Posso não saber nada do coração das gentes, mas tenho a impressão, de que, de tudo, o pior é quando entra a segunda parte da letra de “Atrás da porta”, ali no quando “dei pra maldizer o nosso lar pra sujar teu nome, te humilhar”. Chico Buarque é ótimo pra essas coisas. Billie Holiday é ótima pra essas coisas. E Drummond quando ensina que “o amor, caro colega, esse não consola nunca de núncaras”. Aí você saca que toda música, toda letra, todo poema, todo filme, toda peça, todo papo, todo romance, tudo e todos o tempo todo, antes, agora e depois, falam disso. Que o que você sente é único & indivisível e é exatamente igual à dor coletiva, da Rocinha a Biarritz.
Caio Fernando Abreu
É um resto de toco, é um pouco sozinho
Um pouco de tristeza, um gole.
Um copo meio vazio na cabeceira, com livros que desaprendi a ler.
Uma música que se repete, repete, repete.
Uma dor - no coração - e a impossibilidade de pedir ajuda. Ajuda a quem? Nada poderia ajudar a dar ordem ao caos aqui dentro, aí fora.
Uma sede que não passa. Um abraço que não vem. Uma palavra que não chega. Um telefone que não toca.
Eis que volta a doer, então, uma ferida antiga. Palavras. Escolhas.
E uma certeza: isso vai passar, também.
E as águas, que não de março, mas das lágrimas que caem sem que tenham essa permissão, vem para fechar qualquer estação do ano que já nem me lembro mais.
Um copo meio vazio na cabeceira, com livros que desaprendi a ler.
Uma música que se repete, repete, repete.
Uma dor - no coração - e a impossibilidade de pedir ajuda. Ajuda a quem? Nada poderia ajudar a dar ordem ao caos aqui dentro, aí fora.
Uma sede que não passa. Um abraço que não vem. Uma palavra que não chega. Um telefone que não toca.
Eis que volta a doer, então, uma ferida antiga. Palavras. Escolhas.
E uma certeza: isso vai passar, também.
E as águas, que não de março, mas das lágrimas que caem sem que tenham essa permissão, vem para fechar qualquer estação do ano que já nem me lembro mais.
terça-feira
Ad infinitum
Querido,
Nos outros eu sei onde se abriga o coração, é no peito; em mim a anatomia ficou toda louca, eu sou todo coração.Não consigo escrever mais carta alguma, querido. Trecho, verso, prosa, nada. Não sai nada, palavra nenhuma. Tenho medo de ter me tornado... não encontro a palavra certa. Mas é como se as palavras certas não existissem mais, porque não as encontro nunca. Nem em ruas desertas ou becos sem saída. Nada. E olho que procuro, hein?! Escrevo, apago. Parece tudo borrado, milhões-de-frases-sem-nenhuma-cor, será que você pode entender? Eu não te encontro também. Ou te encontro e não te vejo. Ou te vejo e nem sinto mais o que eu pensava sentir por você. Pois é, as coisas mudam e as pessoas - veja - as pessoas mudam ainda mais. Ou não mudam nada. Desde que voltei, encontrei muita gente que parece como quando eu saí: iguais. Congeladas num tempo que nunca mais passou. Numa página de calendário que nunca mais virou. Ontem foi meu aniversário, sabia? A paz me invadiu por completo. É claro que é mais uma data, um número a mais nos cálculos da vida, mas que me inundou de paz. Paz de palavras que chegaram por pessoas certas, pelos meios certos. Não haveria como ser melhor, acho que quebraria todo o encanto. Eu tenho feito descobertas: já não sei mais onde fica o meu coração. Tudo está exposto, como uma ferida aberta que não cicatriza, mas se alastra por todo o resto do corpo, por todos os poros. Essa minha mania de amor, mania de amar, mesmo sabendo sofrer, mesmo sabendo o peso que tem o amor nas costas humanas. Não tenho culpa, amo cada vírgula desse texto pobre - porque me perdi das palavras - amo porque só isso sei fazer. E é isso. A anatomia se confundiu, as nuvens encobriram o céu. Acho que vai chover...
M.
M.
sexta-feira
Que seja doce

Théo,
Você já se pegou pensando em Deus? Eu sempre estou. O tempo todo. Mas esses dias, confesso, esses dias senti que Ele estava próximo de mim, ao meu lado. Do alto da pedra, em Búzios, o vento batia forte, bagunçava meus cabelos. As ondas quebravam nas pedras com força. O barulho do mar, o sol ao lado quase dormindo, a lua ao outro chegando com passos de bailarina. Ventou um pouco mais forte, eu pensava em Deus. Acho que era Ele. Acho que Ele estava ali - embora eu acredite que ele está em todos os lugares todo o tempo. Pensei que eu poderia ter escolhido outro caminho, eu poderia ter seguido de outro jeito. Eu poderia não ter passado por tudo o que passei nesses meses. Eu poderia não ter crescido tudo o que cresci. Mas Ele me colocou aqui. Ele faz de tudo para o meu bem e eu sei: pelo teu também. Pelo de todos nós, na verdade. Parece que eu sou aquelas senhoras que ficam na igreja 24 horas por dia? Sou não. Nem vou muito à igreja, para falar a verdade. Mas é a minha fé que me leva dia após dia. Não haveria como ser de outro jeito. E existem tantas pessoas que não acreditam... eu não as critico. Nem posso. Também já tive fases de não acreditar. Mas, de uns tempos pra cá, a existência de algo que cuida de nós tem ficado tão explícita para mim, explícita mesmo, jogada no meu rosto. Não consigo não acreditar. Só queria dizer que nesse dia... os meus olhos se encheram d'água porque não haveria de ser de outro jeito. Fiquei tomada de amor, pelo mundo, pelas coisas, por mim. Não estava feliz, daquelas que ficam sorrindo cheia de dentes. Não estava triste. Eu estava bem. E desse dia em diante, é assim que estou: bem.
Te desejo um momento de encontro assim, como o que eu tive.
Te abraço,
Maria.
segunda-feira
A arte do encontro (com a memória)
Depois de dias vendo e revendo no baú da memória tudo o que já se passou, decido: vou escrever. Usar da minha ferramenta favorita para passar um pouco o grito interno. Acalmar as feras da memória. Parece até que fazem anos, né?! Que nada. Menos de quatro meses.
"Envelheci dez anos ou mais nesse último mês", um fato. Então, abro alas para a retrospectiva [sim, essas que, em geral, são só para perto do natal, ano novo blablabla], abro alas para o semestre mais intenso e para a sua beleza, para suas dúvidas, suas novidades mil. Escrevo com uma certa leveza. A leveza de não ter acertado tudo, nem errado tudo. A leveza da medida exata de estar onde eu sempre quis estar. É bom, não é? Confesso que nem sempre. Colocar meus sonhos em primeiro plano me fez abrir mão de uma porção de coisas que, sinceramente, doeu. Doeu deixar minha mãe chorando num aeroporto e embarcar sozinha para um lugar diferente, só com duas malas rosas e um coração cheio de esperança. Doeu. Doeu também deixar meu pai, meu irmão, minha família e meus amigos chorando numa rodoviária. Doeu. Ver o Cristo do avião é lindo. Dá uma paz na alma. sempre gostei de aviões, de voar. Se ser pássaro não daria, que fosse então com asas emprestadas. Voar era uma vontade que tinha desde pequena, entretanto, as viagens nunca se estendiam por caminhos tão extensos quanto os de agora. Desembarcar não foi um problema. Só minha cabeça estava perdida entre o aqui e o ali, o voo e os caras do banco ao lado ouvindo música e falando sobre táticas para o ouvido não doer durante o voo. Um deles lia um livro sobre relacionamentos, não sei o motivo, já que ele não se parecia muito com caras que leem livros sobre relacionamentos... quem sou eu pra julgar quem tem cara de que, não é? O mundo era novo e se abria todo para mim. Em mil pessoas novas, de outros estados, de todo o Brasil. Quem diria que eu, um dia, conheceria alguém de Roraima? Não só conheci como a tenho por colega de quarto. A cara de Roraima, a doçura e o encanto do extremo norte. Outra colega de quarto lá pelas bandas do Ceará, moleca, sorrindo para todo o mundo novo que se abria também para ela. O novo chegou para mim em lágrimas, lágrimas de saudade, soluçoes de saudade, noites sem sono pensando em como tudo poderia ter sido e se a escolha que fiz foi a correta. E foi? Sei não. Sei que segui o caminho que achei justo. E o mundo se abria, então, em encontros com a Academia Brasileira de Letras e um choque, acompanhado de um choro emocionado, ao descobrir que a escolhida era eu. Em livros de Caio Fernando Abreu me esperando na sala de português. Da descoberta do amor à Química. Da paixão imedível por História e suas Grandes Navegações. Da paixão por ensinar, por compartilhar, "conhecimento preso não é nada", digo lento tentando parecer sábia. Sou não. O encontro com pessoas divinas, de Santa Catarina à Caicó, do Rio Grande do Sul ao Pará, de Mauá e suas pérolas, de Três Lagoas e suas duas lagoas e meia, passando docemente por Mato Grosso e seu ilustre cidadão: àquele abraço! Como na música de Gilberto. O Brasil nunca pareceu tão lindo. O Rio de Janeiro então... continua sendo. Fevereiro e Março, maio, abril, junho. Estamos, chegamos. O mês dos namorados. A flor. As flores. Nove horas "e se nos casarmos todos os relógios hão de marcar por esse horário na casa toda". Meus textos morrendo na primeira linha. Eu adoecendo, a voz quase não saindo. "As pedras só precisam de um pouco de cuidado" "As pedras são as coisas mais importantes da vida", em nossas frases sem nexo, sei que me entende. Te entendo também. Deixa o silêncio falando por nós, nesse abismo entre a minha janela e a tua, a minha vida e a tua. Creio que se eu deixasse toda essa retrospectiva para o fim do ano faltaria folha, caneta e mão para escrever. Observando tudo, só posso dizer que estou feliz. Se fossem outros dias, sei que choraria de felicidade. A vida é a arte do encontro: com pessoas lindas, com situações agradáveis, com o crescimento, com a própria vida batendo na cara e dizendo: "ACORDA! É você por você!", e com a memória, seus labirintos, seu exagero de detalhes, seus conflitos. Ainda bem, ainda bem sim, que me deram o poder de lembrar e, mais que isso, o poder de transformar tudo isso em palavras. Para não doer por dentro. Para não sufocar.
PS: O não entendimento é parte do processo daqueles, como eu, que foram alfabetizados em russo, rá!
"Envelheci dez anos ou mais nesse último mês", um fato. Então, abro alas para a retrospectiva [sim, essas que, em geral, são só para perto do natal, ano novo blablabla], abro alas para o semestre mais intenso e para a sua beleza, para suas dúvidas, suas novidades mil. Escrevo com uma certa leveza. A leveza de não ter acertado tudo, nem errado tudo. A leveza da medida exata de estar onde eu sempre quis estar. É bom, não é? Confesso que nem sempre. Colocar meus sonhos em primeiro plano me fez abrir mão de uma porção de coisas que, sinceramente, doeu. Doeu deixar minha mãe chorando num aeroporto e embarcar sozinha para um lugar diferente, só com duas malas rosas e um coração cheio de esperança. Doeu. Doeu também deixar meu pai, meu irmão, minha família e meus amigos chorando numa rodoviária. Doeu. Ver o Cristo do avião é lindo. Dá uma paz na alma. sempre gostei de aviões, de voar. Se ser pássaro não daria, que fosse então com asas emprestadas. Voar era uma vontade que tinha desde pequena, entretanto, as viagens nunca se estendiam por caminhos tão extensos quanto os de agora. Desembarcar não foi um problema. Só minha cabeça estava perdida entre o aqui e o ali, o voo e os caras do banco ao lado ouvindo música e falando sobre táticas para o ouvido não doer durante o voo. Um deles lia um livro sobre relacionamentos, não sei o motivo, já que ele não se parecia muito com caras que leem livros sobre relacionamentos... quem sou eu pra julgar quem tem cara de que, não é? O mundo era novo e se abria todo para mim. Em mil pessoas novas, de outros estados, de todo o Brasil. Quem diria que eu, um dia, conheceria alguém de Roraima? Não só conheci como a tenho por colega de quarto. A cara de Roraima, a doçura e o encanto do extremo norte. Outra colega de quarto lá pelas bandas do Ceará, moleca, sorrindo para todo o mundo novo que se abria também para ela. O novo chegou para mim em lágrimas, lágrimas de saudade, soluçoes de saudade, noites sem sono pensando em como tudo poderia ter sido e se a escolha que fiz foi a correta. E foi? Sei não. Sei que segui o caminho que achei justo. E o mundo se abria, então, em encontros com a Academia Brasileira de Letras e um choque, acompanhado de um choro emocionado, ao descobrir que a escolhida era eu. Em livros de Caio Fernando Abreu me esperando na sala de português. Da descoberta do amor à Química. Da paixão imedível por História e suas Grandes Navegações. Da paixão por ensinar, por compartilhar, "conhecimento preso não é nada", digo lento tentando parecer sábia. Sou não. O encontro com pessoas divinas, de Santa Catarina à Caicó, do Rio Grande do Sul ao Pará, de Mauá e suas pérolas, de Três Lagoas e suas duas lagoas e meia, passando docemente por Mato Grosso e seu ilustre cidadão: àquele abraço! Como na música de Gilberto. O Brasil nunca pareceu tão lindo. O Rio de Janeiro então... continua sendo. Fevereiro e Março, maio, abril, junho. Estamos, chegamos. O mês dos namorados. A flor. As flores. Nove horas "e se nos casarmos todos os relógios hão de marcar por esse horário na casa toda". Meus textos morrendo na primeira linha. Eu adoecendo, a voz quase não saindo. "As pedras só precisam de um pouco de cuidado" "As pedras são as coisas mais importantes da vida", em nossas frases sem nexo, sei que me entende. Te entendo também. Deixa o silêncio falando por nós, nesse abismo entre a minha janela e a tua, a minha vida e a tua. Creio que se eu deixasse toda essa retrospectiva para o fim do ano faltaria folha, caneta e mão para escrever. Observando tudo, só posso dizer que estou feliz. Se fossem outros dias, sei que choraria de felicidade. A vida é a arte do encontro: com pessoas lindas, com situações agradáveis, com o crescimento, com a própria vida batendo na cara e dizendo: "ACORDA! É você por você!", e com a memória, seus labirintos, seu exagero de detalhes, seus conflitos. Ainda bem, ainda bem sim, que me deram o poder de lembrar e, mais que isso, o poder de transformar tudo isso em palavras. Para não doer por dentro. Para não sufocar.
PS: O não entendimento é parte do processo daqueles, como eu, que foram alfabetizados em russo, rá!
sábado
Memórias, crônicas e declarações de amor
Théo,
Antes eu só escrevia sobre o amor. Hoje em dia estou ainda mais chata, acredita? Misturei no amor a saudade e agora estou assim: chata. Só escrevo sobre amor. Só escrevo sobre essa saudade que transborda. O disco riscou. Criar não tenho criado quase nada. Textos não tem saído da primeira linha. Começo, apago. A borracha está quase acabando. Pois é. É que são tantas memórias... elas consomem a gente de vez enquando, vê? Mas nem é tanto quanto antes. Antes que eu digo são uns dias atrás, os dias que eu chorava mesmo. Hoje não choro mais não. Suspiro fundo, mas não choro. Preciso acostumar, os caminhos são esses agora.
Eu queria acreditar, Théo, eu só queria acreditar. Acreditar que você, quem sabe, me esperaria algum dia. Naquela mesma estação, Théo. Onde meu ônibus desembarcou durante todos esses anos de idas e vindas. Eu não mudei em nada não. Só adicionei saudade. Só adicionei uma vontade ainda maior de te abraçar. Mas eu tenho medo. Temo por te sufocar com meu abraço. Temo por te suforcar com meu excesso de amor, como tantas vezes o fiz. Eu te escrevi tanto durante o tempo que estive aí, entretanto você de nada soube, você nenhuma linha leu. Encher-te de palavras boas e sentimentos bons só faria por te sufocar. Minhas palavras mexem no fundo da sua alma e te faz ver que ela existe. Só pude te mostrar tudo o que escrevi um dia antes de partir. Nem sei se você leu e nem sei se me interessa muito. Talvez até não, sabe. E acho até que nem quero que você me espere. Querer não ia te fazer esperar. Não querer me faz sofrer menos. Talvez nem sofra nada, sabe? Sofrer parece que deixa as coisas mais bonitas quando escritas, você não acha? Acho que eu também não acho.
E essa carta termina sem fim,
Patrícia.
Antes eu só escrevia sobre o amor. Hoje em dia estou ainda mais chata, acredita? Misturei no amor a saudade e agora estou assim: chata. Só escrevo sobre amor. Só escrevo sobre essa saudade que transborda. O disco riscou. Criar não tenho criado quase nada. Textos não tem saído da primeira linha. Começo, apago. A borracha está quase acabando. Pois é. É que são tantas memórias... elas consomem a gente de vez enquando, vê? Mas nem é tanto quanto antes. Antes que eu digo são uns dias atrás, os dias que eu chorava mesmo. Hoje não choro mais não. Suspiro fundo, mas não choro. Preciso acostumar, os caminhos são esses agora.
Eu queria acreditar, Théo, eu só queria acreditar. Acreditar que você, quem sabe, me esperaria algum dia. Naquela mesma estação, Théo. Onde meu ônibus desembarcou durante todos esses anos de idas e vindas. Eu não mudei em nada não. Só adicionei saudade. Só adicionei uma vontade ainda maior de te abraçar. Mas eu tenho medo. Temo por te sufocar com meu abraço. Temo por te suforcar com meu excesso de amor, como tantas vezes o fiz. Eu te escrevi tanto durante o tempo que estive aí, entretanto você de nada soube, você nenhuma linha leu. Encher-te de palavras boas e sentimentos bons só faria por te sufocar. Minhas palavras mexem no fundo da sua alma e te faz ver que ela existe. Só pude te mostrar tudo o que escrevi um dia antes de partir. Nem sei se você leu e nem sei se me interessa muito. Talvez até não, sabe. E acho até que nem quero que você me espere. Querer não ia te fazer esperar. Não querer me faz sofrer menos. Talvez nem sofra nada, sabe? Sofrer parece que deixa as coisas mais bonitas quando escritas, você não acha? Acho que eu também não acho.
E essa carta termina sem fim,
Patrícia.
sexta-feira
O que não tem medida nem nunca terá
mas é como se eu existisse dum jeito mais completo.
A gente se lança no mundo sem saber quem é que vai encontrar, e quando é que vai encontrar, e como vai encontrar. Se é que vai encontrar alguém. É tudo incerto. Na verdade, era tudo incerto. Hoje a incerteza evaporou no calor dessa amizade. Hoje a incerteza perdeu seu prefixo. Sobram certezas sobre o quanto todo esse sólido que construímos se incorporou, feito tatuagem, aos nossos dias. As estradas que nos trouxeram até aqui não foram as mesmas. Nós - em três lugares distintos desse Brasil imenso - só fizemos por acreditar num mesmo sonho. Caçando, como se caça borboletas, formas de orgulhar seja lá quem for. Formas de nos orgulhar. Ou de não orgulhar ninguém. Formas de crescer, de mudar. Mudando de cidade, de casa, de vida. Sair de uma cidade tão pequena quanto a minha, confesso, não tornou mais fácil desembarcar aqui. Ter que recomeçar tudo que já estava na metade. Ter que reconhecer e definir o que eu queria pra mim. "Fico aqui? Não fico?" Todo o medo. A saudade de casa. É claro que isso continua muito vivo em mim. É claro que eu ainda choro de saudade. Mas eu tenho certeza de que eu não quero mais que as coisas voltem a ser como eram antes. Faz parte da vida esse andar para frente. Adiar os relógios é quase uma forma de prender a vida sempre num passado que - perdoe a redundância - já passou. Encontramo-nos, os três, na fase mais decisiva de nossas vidas. É justo que a gente tenha se encontrado exatamente nessa fase. É justo que as nossas estradas tenham resolvido se encontrar num tempo em que precisamos tanto dessa amizade que estamos construindo. Vale a pena estar perto de pessoas como vocês. Como vocês não, com vocês. Nem que seja para daqui uns dez anos nos surpreendermos num encontro casual num aeroporto qualquer de uma cidade qualquer. Nem que seja para daqui uns dez anos relembrar com carinho e chorar um pouquinho de saudade. Nem que seja para daqui uns dez anos pensarmos que poderíamos ter feito mais uns pelos outros. Nem que seja para daqui uns dez anos estarmos fazendo um churrascão com nossas possíveis famílias, nossas possíveis novas vidas, nossas possíveis mudanças. Vale a pena. Por vocês vale a pena acreditar. Mas eu espero, de verdade, que daqui uns dez anos estejamos como agora: adoçados por essa amizade diária.Não deixem de olhar as estrelas. "Look how they shine for you" (Gabi, traduza para o Rê, por favor. Brincadeira).
Com amor,
Maria Carolina.
sábado
muro
Théo,
Eu sempre achei fácil por demais gritar que quer mudar o mundo, sempre achei. Gente que cheia de dizeres, de ideias mirabolantes... ih! tem aos montes. O problema, Théo, o grande problema é não olhar só para o próprio umbigo. Mesmo quando finge que olha tudo, não olha. Vê, ao fundo e desfocado, todos os problemas dos outros. O problema dos outros sempre foi importante por demais pra mim, a dor dos outros me dói a alma. Dá nó nas veias não pensar como os outros e atrasar todas as próprias necessidades para pensar em prol do outro. Outra coisa que muito se fala e pouco se faz: olhar em prol da outra pessoa. Ai, estou andando em círculos. Ficando até chata né?! É que tá incomodando, Théo, tá me deixando descontente. Eu sou só a poeira, só uma brisa de vento. As pessoas perguntam: "por que é que você chora? Você é boba, menina, boa de ficar se doendo por tudo. Faz é drama de tudo. Engole o choro." Eu gosto mesmo é de chorar, choro mesmo. Se o choro tá preso na garganta, eu o vomito. Melhor que ficar sufocada mostrando uma força que não existe. Sei que tô errada, sei que é um porre aturar gente assim. Não tem problema. Decidi que queria melhorar o mundo, que ia dar o melhor de mim. Sabe quantos anos eu tinha? Cinco. Essa vontade não passou. Essa vontade me sufoca dia após dia porque me vejo impotente, cara, não sei o que fazer. Hoje a emoção me invadiu, desculpa.
M.
Eu sempre achei fácil por demais gritar que quer mudar o mundo, sempre achei. Gente que cheia de dizeres, de ideias mirabolantes... ih! tem aos montes. O problema, Théo, o grande problema é não olhar só para o próprio umbigo. Mesmo quando finge que olha tudo, não olha. Vê, ao fundo e desfocado, todos os problemas dos outros. O problema dos outros sempre foi importante por demais pra mim, a dor dos outros me dói a alma. Dá nó nas veias não pensar como os outros e atrasar todas as próprias necessidades para pensar em prol do outro. Outra coisa que muito se fala e pouco se faz: olhar em prol da outra pessoa. Ai, estou andando em círculos. Ficando até chata né?! É que tá incomodando, Théo, tá me deixando descontente. Eu sou só a poeira, só uma brisa de vento. As pessoas perguntam: "por que é que você chora? Você é boba, menina, boa de ficar se doendo por tudo. Faz é drama de tudo. Engole o choro." Eu gosto mesmo é de chorar, choro mesmo. Se o choro tá preso na garganta, eu o vomito. Melhor que ficar sufocada mostrando uma força que não existe. Sei que tô errada, sei que é um porre aturar gente assim. Não tem problema. Decidi que queria melhorar o mundo, que ia dar o melhor de mim. Sabe quantos anos eu tinha? Cinco. Essa vontade não passou. Essa vontade me sufoca dia após dia porque me vejo impotente, cara, não sei o que fazer. Hoje a emoção me invadiu, desculpa.
M.
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