sábado

Desistir, desistir, desistir

Fabrício Carpinejar - Daqui por diante
Você me diz que tratará de arranjar um jeito de arrancar seu amor por mim. Como parar de fumar ou beber.
PARE DE AMAR E EMAGREÇA DEZ QUILOS.
Parece fácil?
Já a vejo colocando adesivo no carro. Já a vejo mostrando fotografias de ANTES e DEPOIS.
É descer e pôr o amor na rua, com o cuidado de embrulhar o vidro no jornal para o lixeiro não se ferir.
Tem medo que eu a descarte, portanto é melhor acabar agora. É melhor não sofrer mais. Não vai arriscar.
Nem subirá os olhos pelos andares da geladeira. Não vai conferir a data de validade das confidências. Descobriu que o amor estragou.
Decidiu. Não é uma ameaça, é uma conclusão. Para sempre.
Está interessada em cuidar de sua saúde. Mudará os hábitos.
É com facilidade que afirma. Com desembaraço. Assim como trocar o dia cinco pelo seis na folhinha do calendário, como amarrar os sapatos, como separar as roupas velhas das vivas.
Não pretende mais ser incomodado. Não tem mais nada para falar.
Você cuidará de expulsar o amor que tem por mim. Cortará a água e a luz desse amor.
Está cansada de explicar. Explicar o que nem entende.
Você é capaz de casar para se vingar. Fingir que está feliz. Colocar toda a sua concentração para me convencer que conseguiu.
Serei deportado de sua memória. Me mandará de volta ao conto de fadas, de onde nunca deveria ter saído.
Explica que não é pessoal, é uma decisão técnica. Há outras vidas inocentes em jogo. Mais um pouco, as paredes desabam.
Não é justiça, é desespero, que dá no mesmo.
Rasgou o que não é papel: meus cabelos, meus cílios, meus casacos.
Decidiu, ponto. Como arrumar a cama. Como limpar as gavetas. Como empilhar a louça.
Botou na cabeça. Como quem bate a porta. Como quem desliga o telefone na cara.
Pronto. Como desistir de um curso. Como abandonar uma viagem.
Sem recurso. Sem direito de resposta. Sem pensar duas vezes.
Você vomitará inteiro seu amor por mim. Com os dedos na garganta.
Você deixará o banho transformada. Sem nenhuma lembrança da praça e da noite em que tremia de frio.
Recomeça o ano com um caderno mais bonito do que sua letra.
Sofrerá um pouco de contrariedade no início. Como um vício. Após a primeira semana passa. Acredita que passa.
Você pedirá atestado médico. Para não ir ao trabalho desse amor. Ao expediente desse amor.
Você fará quimioterapia desse amor. Arrancará o câncer desse amor. Arrancará o caroço de minhas mãos de seus seios. Arrancará o pressentimento do meu braço de seus ombros.
Nenhuma choradeira. É natural desamar. Como espantar insetos com o calor. Como recusar esmolas na sinaleira.
Está mais madura, determinada, livre.
Você decidiu, não depende mais de mim. Você decidiu que não presto para sua vida, que merece alguém melhor.
Como quem escolhe ser vegetariana. A partir de hoje, não comerá mais carne. Simples: a partir de hoje, não me ama mais.
Você cuspirá em meu nome. Você vai ocupar todas as sessões de terapia para me ofender.
Eu não presto, nunca prestei, mas o amor que você sente não tem nada a ver comigo. Ele não depende de nós para nascer ou morrer.
Isso só descobrirá depois. Depois de desistir de desistir de desistir.


Insônia

Querido,
dangerous and sweet
Acabo de ouvir uma música sobre contos de fadas, na voz de uma menina que eu desconheço, mas que canta muito bem, tão bem quanto eu gostaria. Mas de que isso te importa, não é? Eu não sei o que te importa. O que é um conto de fadas? Princesas, príncipes, belas e feras? Ah não, quanta bobagem. É tão doce, mas tão perigoso, tão encantador, mas tão inatingível. Como você. Você é um conto de fadas completo, que só me permite uma leitura. Ou quem sabe duas, três. Mas viver nele já seria pedir demais. E digo tentando me enganar: "Eu não quero mais o que eu não posso ter".
E neste dia quente, a minha pressão despenca e eu tento te dizer que não é assim.
Maria.

Eu faço sala pro tempo.

Tenho a memória de tudo que existe
Tudo que é triste e alegre ou não
Eu guardo as flores mortas na sala
Eu faço sala pro tempo
Eu guardo as flores mortas na sala
Eu faço sala pro tempo
Zeca Baleiro

quarta-feira

Pra ser sincera.

Querido,
Agimos certo sem querer, foi só o tempo que errou. Vai ser difícil sem você.
Eu venho mais uma vez me entregar aos nossos planos e te deixar saber dos meus enganos. Eu vim mesmo te dizer que uma amiga minha me mandou desmentir a última carta sua. Eu não desisti, você sabe. Eu não desisto, é claro que você sabe. Só tomo distância, e depois volto com mais vontade de ganhar. Te ganhar? Não. Me ganhar. Não vou me enganar, não vou te enganar. Vai ser difícil sem você. Queria poder atrasar os relógios - de novo os tempos, te cansa essa repetição? - e poder te encontrar no tempo certo, se é que há. Todo dia os mesmos lamentos, todo dia a mesma saudade, e eu, todo dia acordando com essa vontade de olhar noutra direção. Mas eu não me permito, não te permito.
Eu quero ir embora, eu quero dar o fora e quero que você venha comigo, já dizia numa música até um pouco antiga que ouço agora na voz de Caetano. Mas é um convite, vamos?
Maria.

terça-feira

Sobre as estrelas.

-Todas nós nos aprontamos depressa. Era uma ocasião sempre muito importante quando ela, a menina, se deitava no seu gramado para nos olhar. Queríamos era competir, cada uma a seu modo, queríamos brilhar muito naquela noite. Ainda era tarde e alguém nos avisou que ela se deitaria hoje às nove, e que nos olharia até as onze, e depois iria chorar. E a gente tinha sempre o dever de se afastar, aproximar, tudo ao modo e para agradar a visão da menininha. Não sei, ainda não sei por que competíamos tanto o olhar dela, sempre doce. Mas eu não queria me arrumar, nunca quis. Ainda mais num céu com nuvens como haveria de estar essa noite. Marte brilhava tanto, impossível superar. Então era melhor mesmo me esconder. A noite se aproximou e com pouco brilho resolvi ir em frente. A noite chegou de mansinho e a menina no gramado se deitou. Tateou estrela por estrela, para ver qual mais caberia nos seus sonhos. Olhou para Marte com certo desdenho que me fez, ao fundo da alma, sorrir. Mas eu estava tão escondidinha e tão sozinha, tive medo que a menina me olhasse com seus olhos doces. Ela, a menina, viu o mundo girar e anotou ponto a ponto. E se perdendo em sonhos e temores, encontrou-me. Eu estava lá, no mesmo lugar escuro do céu. Ela me viu e de imediato começou a chorar. Chorar chorar chorar sem nenhuma pausa. Não sei o que se passava em sua cabeça. Ainda era tão noite. Tenho pena da menina.
-Deitei-me mais uma noite para olhar o céu. Noites me fazem pensar que só. Pensar, por vezes, enche-me de desespero e transborda solidão. Incrível. Deve ser o poder encantado das estrelas. Não sei qual seria o meu sonho de hoje, mas procurei sem cessar a estrela que melhor caberia nele. Marte brilhava tanto, e eu sabia que era Marte porque planetas brilham mais que estrelas. Brilho demais, não me cabia tanto. Procurar, procurar. Encontrei uma estrela tão perdida, tão apagada e tão só que senti pena. Não dela, mas minha. Como se me olhasse no espelho e visse tudo aquilo que era difícil de perceber. Eu me encontrei, por isso dei de chorar rios e rios. O choro pode fazer ter um ar triste, mas não. Foi a melhor coisa que me aconteceu. Estrelas pequenas tem um céu imenso só para elas, um infinito. Não se prepararam para agradar os olhos, mas agradam mesmo assim. Assim seja, amém.

domingo

Ainda lembro

Querido,
A segunda carta do dia. Pare de me deixar assim, quase sempre com vontade de chorar. É tudo sincero, mas você é tão... impossível quebrar o muro que você construiu ao seu redor. Desculpa, eu tentei, mas acho que desisto.
Abraços,
Maria.

Atrás da porta

Querido,
Eu planto mais perguntas que respostas

Por que somos peças com tantos defeitos? Por que somos tão incompletos? Por que essa doçura que agora me transborda e quebra e detona e invade e ultrapassa todas as barreiras impostas? Sabe, eu nem achei 2009 tão assim. Gostei, me realizei, mas perdi os jogos. Não, não sei porque quero te escrever hoje, não sei se é para falar dos meus defeitos - que hoje se mostram tantos - da minha doçura - idem - ou do meu ano que acabou de amanhecer. É que sempre que eu me pego assim, desprevenida e com lágrimas nos olhos, sinto vontade de correr para te contar, mesmo que por esse papel, corro para te escrever porque te ver já não é mais possível.
Tudo é tão vulnerável. Uma chuva e tudo vai embora com ela. E o mundo passando por cima de tudo, triturando os sonhos. Não, talvez a culpa não seja do mundo, mas nossa, as velhas peças com defeito.
E como você está? Quase nunca pergunto de você, e parece egoísmo ficar assim, só falando de mim, mas não consigo me poupar.
Quando escrevo para você me vem uma imagem tão forte sua em minha cabeça. Sempre a mesma imagem. Você com aquele sorriso quase saindo, quase ficando, quase pedindo, quase mandando. Será que ainda é assim? Faz tanto tempo que não te vejo. Desde que o ano novo chegou, eu tenho tentado te escrever algo bonito, te desejando todas as maravilhas que a gente sempre deseja, mas a forma não era a de sempre. Algo me impediu. Sempre esse impedimento. O mundo nos impede o tempo todo, querido, mas por quê? Ninguém me diz o motivo de tudo isso. Ninguém me explica por que eu ainda estou sentada escrevendo para você. Ninguém me diz por que eu ainda choro. Ninguém me explica o por que da gente querer parecer forte. Ninguém me diz o por que da força não aparecer quando a gente mais precisa. Eu reconstruo em todos os detalhes todas as cenas de 2009. Todos. Todas. Você aparece e desaparece das cenas. Você apresenta todos os cenários e me diz algo que eu não entendo. Tudo bem, as cenas não são tão ricas de detalhes, mas ao fundo, sempre ao fundo, vejo seu sorriso indo embora com vontade de voltar, segurando as minhas mãos com a incerteza de estar fazendo o certo. Inconstante. Por que você tem tanto medo? Eu queria tanto te proteger, te levar comigo. Por que você não quis vir mesmo? Vir, que não significa 'ver', mas significa 'seguir'. Seguir. Nos impedimos tanto. De novo falo sobre os impedimentos. Ando ficando tão repetitiva que me canso. Peça com defeito. Um dia montei com tanta dificuldade um quebra-cabeça de 200 peças, e sabe, eu contei peça por peça, 199, faltava uma. Sentei e chorei, olhando para todas aquelas peças no chão da sala, naquele tapete cinza. Eu queria te proteger mas quem precisava de proteção era eu, você pode ver? Essa velha falta, essa velha ausência, que me acompanha passo a passo e eu vou levando ela com tanto peso que quase me quebra a coluna. E me finjo de forte, e arrumo a postura. Para, tudo isso é só para que você possa depositar todos os seus traumas em mim, porque você me acha forte, acha que eu supero tudo. Não é isso não, meu bem. Eu estou aqui, veja, jogada no chão dessa sala chorando a peça que falta. Não sou forte não, é só mentira, eu brinquei com você o tempo todo. Eu acabei de ler a palavra "ninguém" e eu já a escrevi tanto aqui hoje. "Ninguém" é uma palavra que me assusta, me arrepia, dá solidão. Quem é ninguém e qual o poder que exerce sobre a vida das pessoas? Hoje eu estou cheia de perguntas, você pode ver, não é? Um dia eu escrevi grande e com caneta rosa: O que move o mundo é o poder das perguntas. Eu queria poder te mostrado isso, mas você, novamente, não me deu tempo. Eu sempre louca, falando de tempos, relógios, minutos, segundos, e fico cansada porque você sabe o quanto falar de tempo me cansa. E esse cansaço, de todos os outros textos. E todas as vezes que eu dizia entregar os pontos. E o sofrimento contínuo. E a Marisa Monte cantando lento você-me-tem-fácil-demais-mas-não-parece-capaz-de-cuidar-do-que-possui. Para de me mandar ir. Eu não vou. Não vá pensando que eu sou sua,
Maria.