quinta-feira

ela
lava passa coze
borda a fronha
arruma a cama
e nessa espera medonha
fica repleta de horas
fica vazia de tempo

ele
quer ficar na rua
iludindo a liberdade
sente a noite
encher-lhe o peito
vira o copo com despeito
e se esvazia de vontade

ela
sabe que ele volta
mesmo sem querer voltar

ele
sabe que ela espera
mesmo se ele não chegar

(Josie Mello)

O tempo envelhece

Mais uma vez o tempo me assusta.
Passa afobado pelo meu dia,
Atropela minha hora,
Despreza minha agenda.
Corre prepotente,
A disputar lugar com a ventania.
O tempo envelhece, não se emenda.

Deveria haver algum decreto
Que obrigasse o tempo a desacelerar
E a respeitar meu projeto.
Só assim, eu daria conta
Dos livros que vão se empilhando,
Das melodias que estão me aguardando,
Das saudades que venho sentindo,
Das verdades que ando mentindo,
Das promessas que venho esquecendo,
Dos impulsos que sigo contendo,
Dos prazeres que chegam partindo,
Dos receios que partem voltando.

Agora, que redijo a página final,
Percebo o tanto de caminho percorrido
Ao impulso da hora que vai me acelerando.
Apesar do tempo, e sua pressa desleal,
Agradeço a Deus por ter vivido,
Amanhecer e continuar teimando ...

(Flora Fiqueiredo)
Ah, eu não sinto mais vergonha não
Se a falta vai dizer por mim
Você se engana "tão melhor assim"
Guardando tanto amor
Que eu já não sei
Separar, eu não sei

O som que faz quando um de nós se vai
É quase vai-e-vem
Por muito tempo até que deslizei
Não deu pra segurar
Mas eu tentei
Devagar
Eu tentei

Eu não quero um outro alguém
Muito menos se for
Pra esconder o nosso bem
E um falso sorriso
Penso muito bem
Nesse abrigo indeciso
Outra foto no mural
Eu fui cuidar de mim
Cuidar de mim
Cuidar de mim

Fui procurar ajuda
Para um coração
Trincado pela culpa
Vazando, sem perdão
(Coagulando, sem perdão)

Eu errei
Fazendo a coisa certa
E perdendo toda a essência
Acho até que não
Preciso de você
Quando preciso de você

(Rodrigo Lemos)

quarta-feira

Que nenhum adeus vai apagar.

Odeio chorar por saudade, odeio sentir saudades, sinto como se estivessem me arrancando uma parte vital. Saudade daquelas tardes fazendo pão de queijo ou das noites fazendo miojos, saudade das paixões complicadas, dos amores, dos sorrisos arrancados no começo da manhã. Do Imaculada e suas regras, dos abraços apertados, do choros demorados e risos de doer a barriga. Do sorriso que a Thaisa me arrancava das maiores palhaçadas, das barbies. Das verdades e desafios, das broncas, do meu querer ser mãe. Saudade dos intervalos com a pessoa mais maravilhosa que já conheci, contando-me que o mundo é pequeno pra caramba. Dos sonhos antigos, das confusões, do último pôr-do-sol que vimos juntos, do pôr-do-sol mais lindo que já vimos e que eu ja pude ver sozinha, poxa, eu te amava tanto, talvez mais do que o amor que acumulo por mim. Das brigas intermenáveis com o irmão, ou na casa da vó. Da prima aqui, pertinho. Das flores que ganhei depois de um mês, das danças, dos ensaios, do forró que me tirava de qualquer tristeza, sempre às segundas, quartas e sextas, sempre às sete e meia. Das provas, das vontades de procurar qualquer pessoa pra me escutar chorar. Das voltas de patinete com o pai, do pai sem tantos trabalhos, da mãe sem tantas noites mal-dormidas. Do quarteto, da época sk8, da praça, das cartas de amor, do romance. Cada vez que insisto em ir, peço pra coisas voltarem, rezo pra, onde quer que estejam, perto ou longe, vocês estejam bem. Eu sinto falta dos momentos no Hotel fazenda, da viagem, da Ana Clara nascendo. Sinto falta de cada estrela que morreu desde que me esqueci de contá-las, sinto falta de cada momento em que, desatenta, não disse à vocês: EU AMO VOCÊS, COM TODA A FORÇA QUE CARREGA MEU SER, DIA APÓS DIA. Obrigada, mil, por todos aqueles que hoje me arrancam as lágrimas mais dolorosas, porém, mas doces de saudade.

Que é que eu vou fazer pra te esquecer?
Sempre que já nem me lembro, lembras pra mim
Cada sonho teu me abraça ao acordar
Como um anjo lindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus pode apagar...

Que é que eu vou fazer pra te deixar?
Sempre que eu apresso o passo, passas por mim
E um silêncio teu me pede pra voltar
Ao te ver seguindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus pode apagar"

Estou querendo viajar por minha conta e risco

"Recomeçar é sempre bom. Ando com vontade de sacudir a poeira das experiências adquiridas e ganhar territórios novos. Esse desprendimento demanda liberdade, uma senhora regida pelo desapego. Quero seguir o fluxo da vida como um rio, soltando a âncora porque chegou a hora, deixando velhos portos onde guardo realizações como troféus da existência. Sempre há caminhos novos... As mudanças vêm bater na minha praia. Devo aproveitar seu balanço para me lançar ao mar. Navegar é uma batalha interior que depende de vontade própria. Exige vencer os desafios dos sete mares: o mar do comodismo, do apego, da resistência a mudanças, do equívoco da segurança (porque nada é seguro), do fantasma das perdas, do rompimento dos padrões, do medo do desconhecido. Na minha bagagem acumulei um excesso de responsabilidades que não me pertencem. Estou querendo viajar por minha conta e risco. Até o fim da estrada com direito a paradas prazerosas para contar estrelas e contar histórias. Não quero deixar o melhor de mim para amanhã."
Célia Musilli

domingo

Sei mais caminhos que meus sapatos

E pra deixar tudo melhor, ainda tem as conclusões terríveis de amor, aqueles que sempre me enchem de sentimentalismo.

"Quanto mais ando mais perco
Teu rastro armadilha na estrada sem fim
Choro em silêncio a dor
Sofro mas nem a lua tem pena de mim
Sei mais caminhos que os meus sapatos
Na escuridão esperava por ti
Mas ontem rasguei teu retrato
Te matei e dormi "
Que os bons ventos tragam de volta, meu tão querido amigo, irmão, exemplo. Por favor, por favor, rezo baixinho.