terça-feira

Sem eira nem beira.

Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse

Ai se sêsse - zé da luz

domingo

Cantiga

Liguei o som. No rádio tocava algo e eu de nada entendia. O mundo parecia girar em câmera lenta, e num surto, me lançar para fora dele, me fazendo apenas espectadora de todos esses giros. Como se lá de cima eu pudesse ver Marte entrar em contato com a Terra e formar um grande eclipse. Era tudo tão surpreendente. A Terra girando e conflitando com Marte, entrando em estado de amor imenso. Como um grande balé, cheio de passos certeiros e choques e estados de amor. Eu procurava entender o que a rádio me dizia:"três da tarde, o tempo está nublado e um milhão de estradas congestionadas querendo levar as pessoas ao mesmo lugar. O congestionamento é consequencia das chuvas de verão provocadas pelo El Niño. A cidade está debaixo d'agua. Pessoas morrem porque não sabem nadar". Não sei nadar, eu poderia morrer se estivesse no lugar errado agora. Estou no meio do congestionamento e meu carro é o meio da fila, "não chegarei a tempo, não chegarei a tempo" penso. Pode ser que eu tenha inventado tudo isso, radialista nenhum diria isso às três da tarde, não estava nublado, eu imagino. E lentamente eu parecia voltar à Terra. Abro os olhos de leve, estou deitada no tapete branco do meu quarto, ainda tão desarrumado. Alguém bate na porta... quem poderia ser? Ninguém, estou sozinha em casa, melhor não atender, melhor esquecer. Hoje também não atendi telefonemas. Há tempos não atendo o telefone que parece tocar sem parar. Nenhum amor, nenhum recado, nenhuma novidade para contar aos amigos, nenhum braço a torcer aos inimigos. Nada muda. Acho que estou sobre este tapete no mínimo uns 20 dias. O carnaval já passou, os blocos foram-se embora. Em boa hora. Ou não. São quase quatro da tarde, já. Já? Só? Só. Deve ser tudo ilusão. Quem bate na porta agora é minha mãe. Eu estou a frente desse computador contando essas mentiras de carnavais. Eu não estou. Na prosa, quase morta, me despeço. Me despenco porque escrever torna todas as mentiras verdades. E desato os nós, porque só há nós nos que amam e são amados. Nas minhas mentiras - já tão verdades - não há nós. Há eu.

terça-feira

89% concluído.

Novos vícios, novos horizontes: www.flickr.com/photos/pelosares

Eu tive um amor um dia

"Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou (...). Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia (...). Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena. Remar. Re-amar. Amar."

sábado

Desistir, desistir, desistir

Fabrício Carpinejar - Daqui por diante
Você me diz que tratará de arranjar um jeito de arrancar seu amor por mim. Como parar de fumar ou beber.
PARE DE AMAR E EMAGREÇA DEZ QUILOS.
Parece fácil?
Já a vejo colocando adesivo no carro. Já a vejo mostrando fotografias de ANTES e DEPOIS.
É descer e pôr o amor na rua, com o cuidado de embrulhar o vidro no jornal para o lixeiro não se ferir.
Tem medo que eu a descarte, portanto é melhor acabar agora. É melhor não sofrer mais. Não vai arriscar.
Nem subirá os olhos pelos andares da geladeira. Não vai conferir a data de validade das confidências. Descobriu que o amor estragou.
Decidiu. Não é uma ameaça, é uma conclusão. Para sempre.
Está interessada em cuidar de sua saúde. Mudará os hábitos.
É com facilidade que afirma. Com desembaraço. Assim como trocar o dia cinco pelo seis na folhinha do calendário, como amarrar os sapatos, como separar as roupas velhas das vivas.
Não pretende mais ser incomodado. Não tem mais nada para falar.
Você cuidará de expulsar o amor que tem por mim. Cortará a água e a luz desse amor.
Está cansada de explicar. Explicar o que nem entende.
Você é capaz de casar para se vingar. Fingir que está feliz. Colocar toda a sua concentração para me convencer que conseguiu.
Serei deportado de sua memória. Me mandará de volta ao conto de fadas, de onde nunca deveria ter saído.
Explica que não é pessoal, é uma decisão técnica. Há outras vidas inocentes em jogo. Mais um pouco, as paredes desabam.
Não é justiça, é desespero, que dá no mesmo.
Rasgou o que não é papel: meus cabelos, meus cílios, meus casacos.
Decidiu, ponto. Como arrumar a cama. Como limpar as gavetas. Como empilhar a louça.
Botou na cabeça. Como quem bate a porta. Como quem desliga o telefone na cara.
Pronto. Como desistir de um curso. Como abandonar uma viagem.
Sem recurso. Sem direito de resposta. Sem pensar duas vezes.
Você vomitará inteiro seu amor por mim. Com os dedos na garganta.
Você deixará o banho transformada. Sem nenhuma lembrança da praça e da noite em que tremia de frio.
Recomeça o ano com um caderno mais bonito do que sua letra.
Sofrerá um pouco de contrariedade no início. Como um vício. Após a primeira semana passa. Acredita que passa.
Você pedirá atestado médico. Para não ir ao trabalho desse amor. Ao expediente desse amor.
Você fará quimioterapia desse amor. Arrancará o câncer desse amor. Arrancará o caroço de minhas mãos de seus seios. Arrancará o pressentimento do meu braço de seus ombros.
Nenhuma choradeira. É natural desamar. Como espantar insetos com o calor. Como recusar esmolas na sinaleira.
Está mais madura, determinada, livre.
Você decidiu, não depende mais de mim. Você decidiu que não presto para sua vida, que merece alguém melhor.
Como quem escolhe ser vegetariana. A partir de hoje, não comerá mais carne. Simples: a partir de hoje, não me ama mais.
Você cuspirá em meu nome. Você vai ocupar todas as sessões de terapia para me ofender.
Eu não presto, nunca prestei, mas o amor que você sente não tem nada a ver comigo. Ele não depende de nós para nascer ou morrer.
Isso só descobrirá depois. Depois de desistir de desistir de desistir.


Insônia

Querido,
dangerous and sweet
Acabo de ouvir uma música sobre contos de fadas, na voz de uma menina que eu desconheço, mas que canta muito bem, tão bem quanto eu gostaria. Mas de que isso te importa, não é? Eu não sei o que te importa. O que é um conto de fadas? Princesas, príncipes, belas e feras? Ah não, quanta bobagem. É tão doce, mas tão perigoso, tão encantador, mas tão inatingível. Como você. Você é um conto de fadas completo, que só me permite uma leitura. Ou quem sabe duas, três. Mas viver nele já seria pedir demais. E digo tentando me enganar: "Eu não quero mais o que eu não posso ter".
E neste dia quente, a minha pressão despenca e eu tento te dizer que não é assim.
Maria.

Eu faço sala pro tempo.

Tenho a memória de tudo que existe
Tudo que é triste e alegre ou não
Eu guardo as flores mortas na sala
Eu faço sala pro tempo
Eu guardo as flores mortas na sala
Eu faço sala pro tempo
Zeca Baleiro