sexta-feira

"Me envergonha um pouco escrever tantas frases pobres
Vai que alguém me descobre por aqui"
Desisto. Vou ser "mais decidida e menos amorosa", desisto desta história de coração na frente da razão, desisto. Tudo isso é pura fantasia de criar na cabeça e eu posso muito bem viver sem. Eu estou cansada de parar enquanto todo mundo anda, as pessoas cansam, é mais que natural. Vou andando e vou deixando outra pessoa para trás, por que não é assim que se deve fazer? "Estou cansada de construir e demolir fantasias". Infelizmente eu não nasci para o amor.

Post melancólico, eu sei, eu sei. Mas ninguém lê isso mesmo.

Meu querido amor

Nunca escrevi diretamente para você. Sempre havia uma destinatária em seu lugar. Eu abreviava o caminho, não sei se recebeu alguma notícia minha desde a adolescência ou se as cartas nunca passaram pela poça de seu sopro. Hoje coloquei meu blusão verde bordado 38. O prazer da gola coçando a barba me animou – sou movido ao tato. É dia de inverno, próprio para sentar com uma cadeira dobrável no pátio e expor o rosto à enxaqueca do sol. Não me importa que seja obrigado a tomar uma aspirina depois. Dependo de sua claridade inconsolável.

Desculpa, Amor, você não tem nada a ver com o nosso destino. Nós terminamos antes que você termine. É assim. Desistimos enquanto você prossegue. E apenas você, Amor, que irá até o fim, onde deveríamos acompanhá-lo, você vai até a nossa velhice: as mãos concedidas debaixo dos lençóis. Nós ficaremos na meia-idade, os braços pedindo um táxi. Nós o negaremos secretamente, apesar das pontadas violentas e da saudade dolorida. Negaremos inclusive que o conhecemos, que você é nosso encontro. Seus traços serão coincidências, nunca a soma óbvia dos nossos perfis e lápis de cera.

Nossas dúvidas escondem você. Porque é necessário confiar naquilo que ainda não sabemos. E queremos saber tudo antes mesmo de ter vivido. Nosso nervosismo não tem tranqüilidade para aceitá-lo.

Você tem paciência; nós, tempo. Sei que você não se fez sozinho, não posso escrever em seu lugar, você não é o que confio, é o que confio mais o que confia quem eu amo. E quem eu amo não poderá falar por você igualmente. O amor está entre duas conversas, duas ânsias, dois passados. Não é o desejo da direita, nem o da esquerda. É o que está entre os dois. Flutuando.

O amor é se despertencer. É sentir para passar adiante, não é sentir para ficar com aquilo. É não suportar sentir mais sozinho. Eu me desacostumei com a minha solidão.

Pela pressa de ter o amor só nosso, só nosso, somos capazes de destruí-lo com palavras. Não temos nada para odiar naquela pessoa. Estávamos agradecidos pelo espanto provocado pela sua chegada. Irreconhecíveis pela felicidade que nos fazia imaginar em dobro. Na noite anterior, éramos a vontade desesperada de entender. No dia seguinte, nenhuma vontade de compreensão. Não há persistência, há precipitação.

Mentir para uma pessoa não é tão grave quanto mentir para você, Amor. Mas os casais mentem que você foi um engano, um engodo, uma mentira. Chegam a dizer que você não existiu. Você fica perdido entre as defesas e ataques de ateus, céticos, agnósticos, crentes.

Somos fracos e desabafamos o que não acreditamos. Despejamos tanta violência sobre aquele que amamos para provocar. Para desencadear uma reação. Somos cruéis em nome de amor, para não sujar o nosso nome.

Somos imundos, desolados, irascíveis. Por não agüentar alguma coisa não resolvida em nossa vida. Algo aberto, inacabado. Uma fresta nas venezianas e não mais dormimos. Desconfio que nossa curiosidade está toda no ódio. Não toleramos ter que esperar. Se ele ou ela não vem agora é que não me deseja mesmo. Concluímos logo. Feitos perfeitamente para a fúria, incomodados com a brisa.

Procuramos decidir de vez se aquilo presta ou se não presta, se vale ou se não vale. Ansiamos por um veredicto, uma salvação, uma paz. Penso que desejamos a separação para não sofrer mais. Produzimos a separação, é a resposta mais rápida. A resposta mais rápida é vista como a certa. Um alívio para seguir com o trabalho, e mostrar clareza aos amigos.

E os amigos bem-intencionados não vão nos ajudar. O que disserem a respeito do que aconteceu não será suficiente, o amor é um dialeto restrito aos dois que se amam.

Não reparamos no principal, Amor. Não reparamos que quando amamos o tempo não faz a mínima diferença. Amar será sempre recente: será ontem. Anos juntos e a sensação é que foi ontem. Anos separados e a sensação é que foi ontem. Ontem, ontem. Não há anteontem no amor. As lembranças mais longínquas já são corpo.

É uma pena, Amor, que somos mais decididos do que amorosos. Amar é não decidir. Decidir é terminar sempre.

Fabrício Carpinejar

Carpinejar, por um triz, não me levou a beira das lágrimas.
"O meu amor partiu
Cansou dos meus vícios
E mesmo que amanhã ele volte com outro feitiço
Hoje meu amor partiu e nada vai
Nada vai mudar isso"

Sabe-se lá o porquê, meus amores sempre partem, cansam dos meus vícios...
Eu preciso de um botão de pause, um outro para voltar e mais um outro para play. Preciso de um controle. A verdade é que todas essas nossas discussões me matam pouco a pouco por dentro, você não sabe um terço do quanto eu sofro com tudo isso, ainda que não o sofrimento não seja aparente. E que cada dia, mais e mais, são essas discussões que arrancam lágrimas. Sabe pai, na vida a gente erra mesmo, desliga-se de algumas coisas e eu sou mesmo desligada por natureza, mas te juro, tento fazer o melhor de mim para ser orgulho para você. O problema, ou a solução, é que somos insuportavelmente parecidos, e eu te amo, bem mais que a mim mesma, bem mais que qualquer clichê tentaria explicar...

domingo

Quem somos nós? Não sei, sei que estamos sentados aqui tantos minutos, o relógio tantas voltas já deu, o silêncio insuportável, insuportável silêncio, você, eu.
Discutir, bater sempre na tecla inexistente. O que existe? Se amor existe, assim como dizem, acho que sou capaz de sentir.
Passos em falso, medo, parar.
Você se levanta, olha-me, levanto, te abraço.
_ Eu amo você.
_ Idem, idem, idem.
Pois é, faz tempo que eu não faço post algum. A verdade é que eu criei isto aqui no meio do ano passado num surto de escrever bem e nunca postei nada que, de fato, fosse meu. Agora começarei a postar frequentemente, coisas minhas, devaneios.


o amor é contagioso.